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Gerar e fazer circular a informação.
É neste contexto que se apresenta o segundo número
da newsletter do Inventário Artístico
da Arquidiocese de Évora.
Nesta edição, o gemólogo Rui Galopim
de Carvalho revela-nos pormenores sobre o laborioso
e interessante trabalho que tem desenvolvido no âmbito
deste projecto.
Reflecte-se ainda sobre a importância e o significado
da inventariação do património
religioso na perspectiva de Isabel Fernandes e José
Carlos Valle, responsáveis por projectos congéneres
em Portugal e Espanha.
Em destaque, mostram-se peças que são
expressão e testemunho dos valores estéticos
que sintetizam a história e a cultura dos homens
do seu tempo
e evoca-se, também, a memória
de Francisco Nunes Varela, "o mais importante
pintor com actividade em Évora, na segunda metade
do séc. XVII", nas palavras de Vítor
Serrão. O projecto de inventário, agora
em curso, permitiu trazer à luz novos e importantes
dados sobre a sua vida, até hoje inéditos.
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Gemólogo
Embaixador da International Colored Gemstone
Association (ICA) em Portugal
Que serviço oferece o gemólogo
ao projecto do inventário do património
cultural móvel?
Um projecto de inventariação,
como o que a a Fundação Eugénio
de Almeida está a promover em conjunto
com a Arquidiocese de Évora, que
inclui joalharia e ourivesaria, acaba por
colocar questões que se prendem com
a identificação dos materiais
gemológicos, ou seja, das pedras
que se encontram nessas jóias.
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De facto, a sua correcta identificação
e classificação promove uma
mais completa descrição da
peça, contribuindo por vezes até
com informações preciosas
sobre a história da mesma, designadamente
no que diz respeito à sua datação,
detecção de restauros e de
estado de conservação, avaliação,
etc. É neste contexto que o gemólogo
participa pontualmente numa equipa de inventário.
Saliente-se também o facto de as
pedrarias constituirem um factor de encantamento
e chamamento dos diversos públicos,
dando a gemologia a sua contribuição
para a divulgação das artes
decorativas o que me parece uma interação
bastante interessante.
Que tipo de peças tem analisado?
Desde que este projecto foi lançado,
já foram observadas centenas de peças
de ourivesaria e joalharia com pedrarias.
Desde alfaias religiosas, tais como custódias,
cálices, cruzes processionais, entre
outros "tesouros de arte e devoção",
até resplendores, coroas de imagem
e relicários. Dentro da joalharia
profana ou civil, foram observados inúmeros
anéis, brincos, colares, gargantilhas,
pregadeiras e laças, e, curiosamente,
desde as mais modestas, com pedras de imitação
(vidros e dobletes) ou pedras sintéticas
(nas mais recentes), até às
mais extraordinárias com esmeraldas
colombianas de primeira qualidade e diamantes
de "boa água", o que mostra
a transversalidade social das oferendas
e ex-votos outrora feitas às
diversas irmandades e confrarias da região
e que se materializam nestas peças
agora em processo de inventário.
Quais as pedras mais utilizadas nas
peças?
O século XVIII, por exemplo, está
aqui bem representado, com as pedrarias
e estilos de lapidação típicos
do período. Assim, o diamante, a
esmeralda, o topázio amarelo, o topázio
imperial e incolor, assim como o cristal-de-rocha,
a ametista, o rubi e a pérola, por
exemplo, são entradas comuns nas
fichas de inventário. O mesmo se
passa com as "imitações"
e com as técnicas de melhoramento
da aparência das pedras que ao longo
dos tempos foi evoluindo, e isso é
bem ilustrado no conjunto já observado.
Nesta matéria, fomos descobrindo
vidros incolores e coloridos, vidros "aventurina",
dobletes com vidro e com quartzo, pedrarias
com forro reflexivo e com forro colorido.
Já nas peças do séc.
XX, fomos encontrando não só
as mesmas gemas, e outras, mas com estilos
de lapidação mais consentâneos
com a época, bem como pedras sintéticas
e outras imitações recentes.
Alguma peça lhe mereceu mais atenção?
Há uma peça que, pelo seu
significado histórico, espiritual,
artístico, patrimonial e gemológico,
me mereceu uma especial atenção
profissional e carinho pessoal: falo da
Cruz Relicário do Santo Lenho da
Sé Catedral de Évora. Esta
extraordinária peça de finais
do séc. XVII, que ostenta uma relíquia
da Vera Cruz, construída em prata
dourada, ouro e esmaltes, é ainda
ricamente decorada com quase 1400 gemas,
na sua grande maioria diamantes, uma quantidade
invulgar para uma época anterior
aos diamantes do Brasil, o que é
de notar. Exibe ainda um significativo conjunto
de esmeraldas, quase certamente de origem
colombiana, desde a mais limpa e de cor
saturada à mais "ajardinada"
de cor mais pálida, um bom conjunto
de rubis e espinelas de origem oriental,
duas belas safiras provavelmente do Ceilão
e uma granada cor de laranja (hessonite),
outrora designada de "jacinto",
magnificamente esculpida na imagem do ECCE
HOMO.
Fazer o estudo gemológico expedito
desta peça foi o concretizar de um
sonho de criança, além de
um privilégio e, em meu entender,
esta Cruz Relicário é uma
das mais extraordinárias jóias
de Portugal e da Europa do seu tempo e de
sempre.
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Directora do Museu
de Alberto Sampaio (Guimarães)
Todos sabemos quão importante
é a união de esforços,
o trabalho em equipa, a partilha de conhecimentos
e de saber-fazer. Às vezes, andamos
tão enredados no nosso umbigo, nos
nossos afazeres e nas nossas preocupações
que nem sequer paramos para olhar à
nossa volta e questionarmo-nos sobre o que
fazemos e questionar os outros que como
nós trabalham em áreas afins.
De facto, às vezes preocupamo-nos
pouco em saber se outros fazem o que nós
fazemos e com que métodos, e com
que dificuldades e com que sucessos!
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Este
pecadilho, que espero nos seja perdoado
,
julgamos que foi curado pelo agrado e prazer
com que tomámos conhecimento (no Encontro
recentemente organizado pela Fundação
Eugénio de Almeida e designado "Inventariar
para conhecer") do trabalho que vem sendo
desenvolvido por portugueses e espanhóis
em prol da inventariação do
património. Perceber como a generosidade
e a sabedoria de alguns tem permitido que,
em Portugal, aqui e ali, num crescendo que
cresce ao ritmo das posses e das boas vontades
de uns quantos, se vai trabalhando com denodo
na inventariação do património
religioso.
Uma palavra aqui de apreço, de admiração
e de reconhecimento pelo trabalho que vem
sendo desenvolvido pela Fundação
Eugénio de Almeida na inventariação
do património religioso da diocese
de Évora. Aí, homens e mulheres
de boa vontade lançaram as redes ao
mar e através delas têm conseguido
trazer à superfície tesouros
escondidos. O que posso mais dizer sobre o
trabalho desenvolvido pela Fundação?
Continuem, com coragem e sabedoria. Continuem
a divulgar o que vão fazendo. Continuem
a publicar o trabalho realizado. Continuem
a organizar encontros para partilha de conhecimentos.
Com o trabalho que vêm desenvolvendo
estão, seguramente, no bom caminho.
Inventariar é preciso!
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Director do Museo
de Pontevedra (Galicia, España)
"Inventariar para conhecer".
Este foi o título da xornada técnica
-workshop- convocada a principios do mes
de novembro pola Fundaçâo Eugénio
de Almeida. Inspirada polo traballo que
sobre o patrimonio moble da Arquidiócese
de Évora está levando a cabo
desde hai xa algún tempo a Fundación,
reuniu a numerosos profesionais portugueses
e españois especializados na realización
desa clase de inventarios.
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fixar o que poderiamos chamar o estado da
cuestión sobre a elaboración
deses esixentes estudios incidindo, todos
os asistentes na importancia e rendibilidade
da súa correcta execución. Son,
en efecto, esenciais para coñecer con
precisión a que, por razóns
históricas, é cuantitativa e
cualitativamente a parcela máis destacada
do patrimonio histórico-artístico
luso-español, convertida, por iso,
nun referente inexcusable da identidade cultural
e cultual dos dous estados. O coñecemento
deste rico patrimonio, paga a pena recordalo,
ofrécese así como un instrumento
de imprescindible invocación para acometer
iniciativas tendentes á súa
axeitada conservación, protección
fronte ás agresións naturais
e/ou humanas e divulgación, sexa de
carácter puramente cultural ou máis
explicitamente catequético.
Se trasladamos estas ideas xenéricas
a un plano máis concreto, neste caso
o da Arquidiócese de Évora,
parece claro que a culminación dun
proxecto como o que nos ocupa, o de inventariar
con rigor todo o rico patrimonio moble da
Igrexa, será de capital significación
tanto para un mellor coñecemento
do pasado do territorio que abrangue como
para o ulterior desenvolvemento de iniciativas
sociais, culturais e cultuais de alcance
moi dispar.
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A 18 de Março de 1699, falecia Francisco
Nunes Varela "o mais importante pintor
com actividade em Évora (e em toda
a província alentejana) durante a
segunda metade do século XVII e personagem
de considerável prestígio
na sua cidade", no dizer de Vítor
Serrão, que dele tratou exaustivamente
na sua tese de doutoramento e depois no
boletim "A Cidade de Évora"
(ser. II, n.º 3, 1998-99), trazendo
a público muitas notícias
inéditas e organizando um corpus
da sua obra.
A inventariação do património
móvel da arquidiocese no concelho
de Évora, já concluída,
possibilitou confirmar e anotar muitas das
suas obras, bem como aportou novos dados
para completar a sua biografia. Um dos mais
interessantes é sem dúvida
o testamento do pintor, que se julga inédito.
Oito meses antes do seu falecimento, Francisco
Nunes Varela, já com 77 anos de idade,
com uma posição social apreciável
(além de pintor de mérito,
desde 1656 era Familiar do Santo Ofício,
a que juntou em 1674 o cargo de Alcaide
dos Cárceres da Inquisição)
e desafogada situação económica,
resolve fazer testamento. O motivo deixa-o
expresso logo no início: "temendo-me
da morte, desejando pôr minha alma
no caminho da salvação, por
não saber dia nem hora quando Nosso
Senhor será servido me levar para
si".
Já viúvo (a mulher Antónia
de Matos falecera em 1690), sem filhos,
ao manifestar as suas últimas vontades,
pede para ser sepultado na igreja de S.
Francisco nas "covas dos irmãos
terceiros" e para ser acompanhado por
todas as Irmandades de que era irmão,
e de que faz o elenco - Misericórdia,
Santíssimo da Sé, do Rosário
(de S. Domingos), dos Prazeres (Santo Antão),
do Carmo, de São Nicolau (do Convento
da Graça), da Senhora da Boa Morte
-, deixando esmola a cada um dos acompanhantes.
Depois de destinar uma apreciável
quantia para a celebração
de missas por sua alma e de seus parentes
e em honra dos principais santos da sua
devoção, deixa o remanescente
a seu irmão Lourenço Nunes
Varela, também conhecido pintor,
com o usufruto de vários foros, passando
por sua morte tudo para a ordem Terceira.
Igualmente por disposição
testamentária, dá alforria
à sua escrava Maria da Ressurreição,
deixando-lhe a esmola de doze mil reis,
vários móveis e roupa, dois
painéis - S. Miguel e Nossa Senhora
- e uma casa na rua da Carta Velha, que,
por morte dela, passaria também para
os irmãos terceiros franciscanos.
Beneficia ainda os testamenteiros e pessoas
que lhe eram queridas com alguns bens, tais
como um crucifixo, uma imagem do Menino
Jesus, outra de Santo António "com
o menino no livro", um S. Francisco
de barro, o anel que trazia no dedo, uma
pintura do Ecce Homo e os seus livros. Dos
róis anexos ao testamento verifica-se
que a grande beneficiária foi a Ordem
Terceira de S. Francisco, sobretudo com
os imóveis: casas na Rua dos Mercadores,
defronte da portaria de Santa Clara, na
travessa do Arquinho (e uma adega), e na
travessa do Capado.
A escrava Maria da Ressurreição
Moreno, liberta por testamento do pintor,
tomou posse do legado - a casa na rua da
Carta Velha - em Maio de 1699. Em 1734,
empreendeu a peregrinação
a Santiago de Compostela e, em Tuy, adoeceu
sendo recebida no hospital dos pobres e
peregrinos onde, em 15 de Março,
veio a falecer.. O pároco, na certidão
de óbito, indica que o seu funeral
teve vigília e missa cantada, "tudo
por caridade" e que foi sepultada no
claustro da Catedral. Junto com a certidão,
enviada à Ordem Terceira, veio o
testamento de Francisco Nunes Varela, que
ela trazia consigo, como prova essencial
da sua liberdade. AG.
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· A APOM - Associação
Portuguesa de Museologia, distinguiu o projecto
do Inventário Artístico da
Arquidiocese de Évora | Exposição
Tesouros de Arte e Devoção
com o prémio Melhor Trabalho sobre
Museologia no biénio 2004/2005.
· Foi homologada, em Outubro
de 2005, a candidatura do projecto de Inventário
do Património Cultural Móvel
da Arquidiocese de Évora e sua divulgação,
apresentada pela Fundação
Eugénio de Almeida ao Programa Operacional
da Cultura.
· Realizou-se em Évora,
no Fórum Eugénio de Almeida,
nos dias 11 e 12 de Novembro 2005, o workshop
Inventariar para Conhecer, que reuniu
técnicos e responsáveis por
projectos de inventariação,
portugueses e espanhóis, em torno
da discussão sobre metodologias e
práticas utilizadas no desenvolvimento
do trabalho de inventariação
do Património Cultural.
· Ficou concluída,
no último trimestre de 2005, a inventariação
do património cultural móvel
religioso do concelho de Vila Viçosa.
· Cumprindo os objectivos
da divulgação do inventário,
a Fundação Eugénio
de Almeida disponibiliza, no primeiro trimestre
de 2006, o website do projecto, possibilitando,
desta forma, o acesso alargado à
base de dados.
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